Criação

História da Fundação da Faculdade de Aperfeiçoamento Médico da PUC-RIO
Rubem da Costa Leite Amarante (1953)

Me apraz reivindicar nosso pioneirismo no ensino Pós-Graduado no Brasil. Em 1952, sendo eu o Chefe da Clínica de Otorrinolaringologia da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, Cátedra do Prof. Raul David de Sanson,  muito me preocupava  o número  de médicos recém-formados que me procuravam pedindo para freqüentar o serviço, ou mesmo tomar cursos particulares, todos lamentando  que, pela deficiência do ensino de então, não se sentiam capacitados para exercerem a profissão especializada Procurei indagar se em outras Clínicas também o mesmo era observado. Em umas mais que em outras, mas idênticas eram as queixas. Pensei então na necessidade da organização de Cursos de suplementação de Ensino. Com esta preocupação, procurei vários catedráticos indagando sobre a possibilidade de organizar em suas Cátedras estes Cursos, mas foram eles unânimes em me dissuadir por acharem que estes cursos seriam superiores aos que eles ministravam. Desiludido mas persistente procurava outros meios quando tomei conhecimento da criação dos cursos de Direito e Filosofia, e dos já projetados de Engenharia e outros, mas não do ensino médico, desta recém criada, mas já prestigiosa Universidade Católica. Julguei que seria a oportunidade de me entrosar com a direção desta Universidade.

Vislumbrava um meio de chegar ao Reitor da PUC quando li no jornal uma curiosa notícia de que o Presidente Vargas havia se encontrado com o Ministro da Justiça e indagara: “como vai o meu bispo civil”? O Ministro então era o Prof. Aldroaldo Mesquita Costa, político destacado, meu conterrâneo, conhecido católico fervoroso muito ligado a alta direção da Igreja, cujo chefe de gabinete era o também meu conterrâneo e colega de turma Bayard Lima. Solicitei-lhe então que me apresentasse ao Sr Ministro. Ele levou-me prontamente a sua Excia.  a quem relatei  o meu objetivo.

O Ministro ouviu com atenção, elogiou muito minha iniciativa, mas com um sorriso irônico disse: “O Sr. bateu em porta errada, pois sou  Ministro da Justiça e não da Educação”, ao que retruquei: “não vim procurar o Ministro de Estado, mas sim o Bispo Cívil do Presidente Vargas”. Ele sorriu e indagou: “o que o Senhor deseja?” Respondi: “que me leve ao Reitor da Universidade Católica”. Efetivamente dias após, me conduziu ao Palacete da Rua São Clemente, ao lado do Colégio Santo Inácio, onde  estava  instalada a Universidade e me apresentou, com palavras elogiosas, ao Magnífico Reitor Pedro Belisário Veloso, Padre jesuíta, Engenheiro, Reitor, inteligente, simpático e perspicaz. Basta lembrar que trocou o terreno no Castelo destinado a construção da Universidade, por outro bem maior na Lagoa. Não satisfeito, terminou localizando nossa Universidade neste belo e espaçoso parque. Ainda com relação à sua filosofia, permito citar um fato curioso: em minhas várias idas à Universidade já em construção do segundo grande prédio, notei que em uma das extremidades apresentava uma curva em direção a futura avenida e eu ingenuamente lhe perguntei: esta construção não vai prejudicar a largura da futura avenida? Ele respondeu-me com a fábula do Rei, o burro e um súdito. O Rei convocou um súdito e propôs que se no prazo de 20 anos ensinasse um burro a falar, lhe daria o seu reino, mas caso contrário mandaria decapitá-lo. Com surpresa ele aceitou o encargo, ciente da impossibilidade da tarefa mas  justificou: daqui a 20 anos o Rei, o burro ou eu não mais existiremos.

Voltando a apresentação, o Magnífico ouviu com muita atenção o que eu havia idealizado. Mostrou interesse e aventou até mesmo a possibilidade de seu patrocínio, mas declarou que precisava de alguns dias para responder, pois teria que consultar a comissão diretora e eu grosseiramente, retruquei: o Presidente Vargas quando não queria resolver determinada questão nomeava uma comissão para decidir, que era tanto maior, quanto menor o interesse demonstrado. O Reitor não levou em consideração minha grosseria e explicou delicadamente que a comissão era composta apenas de um representante do Cardeal, outro dos Jesuítas e ele, Reitor. Sai meio desanimado, mas recebi com agradável surpresa, dias depois, o chamado do Reitor para me comunicar que a Universidade havia se interessado e até mesmo poderia estudar a possibilidade de encampar estes Cursos. Disse também que havia lido o esboço da organização e os estatutos que lhe deixara, e que, como eu estava  tão obstinado com o projeto, me autorizava a terminar a organização.

Após vários encontros esclarecendo dúvidas, estreitando nosso convívio e assim criando simpatia mútua, solicitei a escolha do corpo docente. O Reitor ponderou que, certamente após tantos detalhes, provavelmente já devia ter cogitado alguns nomes, e que devido a nossa convivência e o prestígio de nosso apresentador ele me confiava a seleção do corpo de professores. Com esta incumbência, selecionei 20 livre-docentes, a maioria pertencente à Faculdade Nacional de Medicina, alguns já se projetando no magistério e dispondo de serviços para ministrar os Cursos. Levei a relação dos selecionados: Professores Adayr Eiras de Araújo, Antonio Paulo Filho, Augusto Paulino Filho, Ary Borges Fortes, Bayard Lucas de Lima, Benjamin Vinelli Baptista, Clementino Fraga Filho, Darcy Monteiro, Ernani Braga, Geraldo Siffert, Gustavo Gouvea, Haroldo da Rocha Portela, Jayme Vignoli, José Leme Lopes, José Mário Caldas, José Norberto Bica, Paulo de Góes, Pulchério Filho, Renée Laclete, Rinaldo Delamare e Waldyr Tostes para apreciação do Magnífico Reitor, detalhando-lhe o “curricullum” de cada um. Ele não fez nenhuma objeção, apenas declarou que alguns já conhecia de nome e me autorizou a convidá-los oficialmente. Em uma audiência especial recebeu-nos com muita cordialidade, renovou o convite e declarou que em breve escolheríamos a data para inauguração. Na saída, me disse que havia lido o resumo dos Estatutos da nossa Escola que eu lhe havia deixado. Como de praxe, a escolha do Diretor deveria sair de uma lista de três nomes da Congregação, no entanto na Universidade Católica a escolha era exclusiva atribuição do Reitor, e que já havia escolhido o nosso, que deveria ser eu, por estar melhor envolvido no assunto. Ponderei que entre os escolhidos havia nomes de maior projeção, o que nos seria de grande valia. Ao que ele prontamente contestou o Senhor já está bem entrosado com este selecionado grupo estando em melhores condições de Direção e certamente não escolheu nenhum desafeto seu.

Marcamos a inauguração para o mês de Abril de 1953, no prédio da Universidade, ainda no palacete da Rua São Clemente, e lá, em cerimônia simples, o Reitor empossou a Diretoria e o Conselho, dando início às atividades da Faculdade de Aperfeiçoamento Médico, pois na época, não era usual o termo de Pós-Graduação. Com a confiança do Magnífico Reitor, durante quase uma década programei, dirigi, incentivei e procurei difundir a nossa Faculdade no meio médico. Com a aproximação da data do concurso de Cátedra a que deveria me submeter na Faculdade Nacional de Medicina, e com a mudança do Reitor, solicitei meu afastamento.

Fui substituído por uma diretoria progressista e dinâmica, que mudou o nome da Faculdade para Escola de Pós-Graduação. Procurou integrar a Escola na Universidade, criando outros Cursos, inclusive os de Mestrado em algumas especialidades, mas dispensou a exigência de Livre-Docência para os futuros Professores. Outras diretorias, também não menos operosas se sucederam, procurando elevar o bom nome da Instituição, que hoje está entregue à dinâmica e inteligente direção do Prof. Hilton Augusto Koch e do Decano Amarante Neto.

Peço que relevem o tempo que lhes tomei em detalhes muito singelos, mas que julguei necessários para melhor esclarecimento dos fatos. Com o propósito de dar maior veracidade à narração feita, apresento-me: Fundador da Faculdade de Aperfeiçoamento Médico e Professor Emérito da PUC, Membro da Academia Nacional de Medicina,  Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Agraciado com a Medalha Tiradentes pelo Estado do Rio de Janeiro, Professor Adjunto da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil e da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Professor Titular da Universidade Gama Filho, Chefe do Serviço da Policlínica Geral do Rio de Janeiro e da Clínica Prof. Rubem Amarante. Com 96 anos de idade 73 de Medicina, 53 de magistério e 68 de casado ainda acompanho com muito interesse e justificado orgulho a trajetória vitoriosa e o prestigio de nossa Escola no meio Médico.

Atribuo a minha longevidade à dádiva divina e também ao amor, carinho, dedicação, cuidados e compreensão de minha mulher e de meus filhos, especialmente minha filha Ana Maria que na nímia de cuidados é até a ditadora do meu cardápio.

Confesso que desde cedo tenho em mira a sentença de honra que o povo de minha terra, a nobre e inesquecível Pelotas em sinal de gratidão ao meu pai, seu velho e conceituado clínico, insculpiu na herma que lhe dedicou em praça pública “Há um único meio de vencer a morte: é a consciência de ter feito o bem.” Muito obrigado.

* Esse texto foi escrito pelo Dr. Rubem da Costa Leite Amarante para discursar na reunião do Conselho Universitário da PUC em comemoração aos cinqüenta anos de existência da EMPG em 7 de outubro de 2003. Atualizado por Milene Couras (Assessora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio) em Fevereiro/2008.  Hoje, o Dr. Rubem Amarante está com 100 anos, completados em 7 de janeiro de 2008, e recebeu em homenagem ao seu centenário uma placa de agradecimento pela criação da Escola Médica que está fixada no Diretório de Admissão e Registro (DAR) da universidade.