A sífilis ontem e hoje

Sergio Schargel

Cerca de 300.000 pessoas estão infectadas com a sífilis, segundo a revista científica The Lancet, e ela foi a causa da morte de 113.000 pessoas ao redor do mundo apenas em 2010. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2010 houve 1249 novos casos de sífilis adquirida e apenas cinco anos depois, em 2015, ocorreram 65,878 novos casos, um aumento de mais de 5000%. Também em 2015 houve uma incidência maior da infecção em relação ao ano anterior em 13 de 14 estados brasileiros.

Apesar de periculosidade ter diminuído ao longo dos séculos, a doença ainda se mantém bastante atual. Mesmo com a AIDS sendo atualmente a doença sexualmente transmissível mais famosa e mais preocupante, a sífilis é historicamente uma das DSTs que mais causaram estragos.

O combate, porém, tem caminhado de forma progressiva e a OMS revelou que em 2015 Cuba foi o primeiro país a erradicar a transmissão de mãe para filho durante o nascimento. O diretor-geral da OMS (qual é o nome do diretor geral??) defendeu na época que “eliminar a transmissão de um vírus é a maior conquista de saúde pública possível”. Já que não existe vacina, é sempre importante frisar a importância do uso de métodos preventivos durante o ato sexual para prevenir não apenas a sífilis, como também outras doenças sexuais.

Um dos grandes problemas da sífilis é que ela é difícil de ser identificada, especialmente em mulheres. Nos homens, como o órgão sexual é externo, fica mais fácil descobrir quando se está com a infecção, já que ela aparece sob a forma de uma úlcera na pele. Porém, nas mulheres ela pode aparecer dentro da vagina e passar despercebida por não causar dor. A doença é transmitida pela bactéria T. Pallidum e infecta em geral 1/3 das pessoas expostas a ela.

O nome sífilis surgiu em 1530 em um poema de Girolamo Fracartoro que contava a história de um pastor que amaldiçoou o deus sol e foi punido com a doença. Existem divergências sobre a origem da doença, já que embora por muito tempo tenha sido descrita como “uma vingança dos índios americanos contra os europeus” durante a época das grandes navegações, ela teria sido supostamente descrita por Hipócrates na Grécia antiga. De qualquer forma, foi a partir do século XVI que ela se tornou epidêmica, provavelmente através de uma mutação. Ainda nesse século iniciou-se o uso de mercúrio no tratamento da doença e notou-se um abrandamento das manifestações clínicas.

Durante o ciclo de palestras “A Neurologia Ontem, Hoje e Amanhã” realizada na PUC-Rio no último dia 23, a Doutora Rosalie Branco Correa falou sobre as origens da DST em sua palestra “Sífilis: uma doença secular ainda atual”: “A sífilis se espalhou pela Europa em uma enorme epidemia no século 15 e 16, em parte graças às guerras. Há teorias que sugerem que a sífilis seria uma doença muito mais antiga do que isso, porém não havia descrições específicas sobre a doença. Durante as guerras, muitos europeus empregavam mercenários que haviam estado nas Américas com Colombo, então o que se supõe é que esses homens se infectaram lá e disseminaram ela. Os europeus trouxeram a varíola e a catapora para a América e os indígenas devolveram com a sífilis. O interessante é que a doença ainda não tinha um nome então era batizada com o nome dos inimigos. Os franceses, por exemplo, o chamavam de Mal de Nápoles por provavelmente terem se contaminado em investidas na cidade italiana e os italianos a chamavam de Mal Francês”.

A sífilis também foi protagonista de um dos estudos mais polêmicos já realizados. Entre 1932 e 1972 foi realizado um estudo sobre a doença, denominado Estudo Tuskegee, que visava coletar informações sobre sua evolução em homens negros. A pesquisa se tornou controversa por não respeitar a ética e passou a ser usada como exemplo de má conduta científica. Realizada no Alabama, Estados Unidos, reuniu vários sifilíticos em estágio avançando que não foram informados que tinham a doença, com o objetivo de pesquisar a progressão natural dela sem o uso de medicamentos. Além de não serem informados de seu diagnóstico, os doentes não haviam dado seu consentimento para participar da pesquisa. Em 1997, com apenas 8 participantes do estudo ainda vivos, o governo norte-americana realizou um pedido de desculpas para todos que participaram do Estudo Tuskgee.

Em caso de aparecimento de uma úlcera na pele, especialmente nos órgãos sexuais, um médico especializado deve ser consultado o mais rápido possível.

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