Alcoolismo na juventude

Sergio Schargel

Uma pesquisa encomendada pela Unifesp revelou que 60 % dos adolescentes com menos de 18 anos jA? experimentaram A?lcool. Desses, cerca de 15% tA?m entre 10 e 12 anos. Outra pesquisa feita pelo IBGE mostrou que 27% das pessoas entre 18 e 24 anos bebem ao menos uma vez por semana. NA?meros alarmantes que mostram a potA?ncia da droga e sua penetraA�A?o na sociedade brasileira.

Diversos fatores podem levar uma pessoa a buscar conforto ou prazer na droga. AlA�m da pressA?o social, da receptibilidade que o A?lcool possui e do fato de ser legalizado, existe tambA�m uma tendA?ncia de consumidores que, por jA? terem familiaridade com a substA?ncia, a procuram em excesso quando estA?o passando por momentos complicados ou desagradA?veis. O A?lcool tem um fator muito forte de vA?lvula de escape, podendo proporcionar uma calma temporA?ria, uma espA�cie de analgA�sico a curto prazo para a dor psicolA?gica. E por ser legalizada, se torna ainda mais recorrente, funcionando por vezes quase como um remA�dio que nA?o precisa de prescriA�A?o mA�dica. Por isso A� comum encontrar pessoas com problemas psicolA?gicos que abusem da substA?ncia.

Os jovens fomentam outro problema na relaA�A?o com a bebida: a imaturidade. Uma pessoa mais velha, experiente, normalmente possui um maior conhecimento dos limites do prA?prio corpo. Um jovem nem tanto, justamente por ter menos vivA?ncia. AlA�m da pressA?o social ser maior entre pessoas de menos idade, seja por influA?ncia de amigos ou de festas muito comuns em ambientes universitA?rios, eles tendem a beber excessivamente desconhecendo atA� que ponto seus corpos aguentam. Excluindo, obviamente, pessoas que jA? sofrem com alcoolismo, A� mais comum que adultos bebam pelo sabor da bebida ou apenas socialmente, enquanto os mais novos tendem a beber grandes quantidades visando o efeito alcoA?lico, tornando a intoxicaA�A?o um jogo, uma competiA�A?o. Isso pode acarretar em acidentes fatais, como o do jovem na Unesp que bebeu 30 doses de vodka durante uma competiA�A?o e veio a falecer. Para a psiquiatra FA?tima Vasconcellos, professora do Departamento de Medicina da PUC-Rio, esse aumento do consumo entre os jovens representa um perigo: a�?Os adolescentes tA?m bebido para se embriagar. AlA�m dos meninos, as meninas estA?o bebendo muito, e o problema A� que mulheres tA?m uma capacidade menor de absorA�A?o do A?lcool. Sem falar que isso vem muitas vezes acompanhado de uma sA�rie de comportamentos de risco como dirigir ou andar na rua bA?bados, por exemploa�?.

JoA?o (nome alterado para preservar sua identidade), estudante de ComunicaA�A?o Social, 27 anos, foi um dos muitos jovens que acabaram sofrendo as consequA?ncias do excesso. Acostumado a beber desde os 15 anos, sente hoje o efeito do consumo no longo prazo: a�?Minha relaA�A?o com o A?lcool sempre foi de lazer. Costumava beber em festas, shows, churrascos, bares com amigos, porA�m na maioria das vezes em excesso. Comecei a beber mais ou menos com 15 anos, em pequenas quantidades, mas que rapidamente cresceram conforme fui criando resistA?ncia ao A?lcool. Mais recentemente precisava em torno de 15 latas de cerveja ou 500ml de vodka para atingir aquele estado alegre do A?lcool. Mais ou menos na metade do ano passado comecei a sentir uma dor branda no lado esquerdo do abdome, e somente em janeiro fui A� um mA�dico me consultar. ApA?s uma bateria de exames e uma tomografia fui diagnosticado com pancreatite crA?nica. O mA�dico me aconselhou a parar de beber definitivamente. Parei. Ainda vou a festas, shows, churrascos, bares, porA�m nA?o bebo maisa�?.

A dependA?ncia do A?lcool geralmente demora a surgir, mas o consumo a longo prazo gera doenA�as graves como cirrose e hepatite. Alguns fatores facilitam o consumo: por ser socialmente aceita, A� comum ver familiares e amigos bebendo desde cedo, o que torna o consumo de A?lcool algo normal; a ausA?ncia de fiscalizaA�A?o facilita a compra de bebidas alcoA?licas por jovens menores de 18 anos; o baixo custo da bebida tambA�m facilita o consumo.

E nA?o existe apenas o problema do consumo da substA?ncia em si, mas a associaA�A?o dela a outras substA?ncias, como energA�ticos, aumenta os riscos de acidentes, de acordo com pesquisa da Universidade de Victoria, no CanadA?. Isso aconteceria por causa da cafeA�na contida no energA�tico, que faz o consumidor se sentir mais desperto e por consequA?ncia beber mais. NA?o sA? a mistura pode aumentar o risco de acidentes, como tambA�m pode causar problemas no coraA�A?o e insA?nia. AlA�m dos riscos e prejuA�zos que o A?lcool causa, se consumida em excesso, a cafeA�na contida no enA�rgico pode causar ataques de pA?nico e de ansiedade.

Mas o que leva os jovens a procurarem o A?lcool tA?o cedo? Quais sA?o as reais consequA?ncias disso? Para FA?tima Vasconcellos, a questA?o passa pela necessidade de aceitaA�A?o: a�?A adolescA?ncia A� uma fase de crescimento e com ela surge uma necessidade de afirmaA�A?o, o que torna os adolescentes vulnerA?veis a novos hA?bitos. Os jovens muitas vezes acham-se onipotentes, como se pudessem tentar tudo, como se tudo fosse dar certo, pois nA?o tA?m noA�A?o do perigo. EntA?o quando entram em contato em um meio onde todo mundo bebe, comeA�am a beber para serem aceitos e nA?o conseguem parara�?.

Beber A� um hA?bito enraizado no brasileiro que sA? pode ser mudado com muito trabalho. Por ser legalizado e difundido, hA? toda uma suavizaA�A?o na preocupaA�A?o relacionada a substA?ncia, que se camufla dentro do manto do lA�cito e faz as pessoas se esquecerem ou ignorarem que A� uma droga tA?o potencialmente destrutiva quanto qualquer outra. Mais do que socialmente aceita, o A?lcool se tornou socialmente incentivado. Por ser associado ao relaxamento, acabou se tornando enraizado a tal ponto que algumas atividades sociais chegam a perder o sentido se nA?o tiverem a presenA�a da bebida. E quando isso comeA�a a acontecer, a influA?ncia acaba atingindo as pessoas mais jovens que, talvez por nA?o contarem com tantas responsabilidades e preocupaA�A�es quanto os adultos, acabam sendo mais propensas a exageros. Como a psiquiatra Dra. FA?tima Vasconcellos afirma: a�?campanhas de conscientizaA�A?o deveriam existir na escola, em casa e atA� entre os pediatras. Os profissionais e a famA�lia tA?m que ficar atentos e explicar os problemas e as consequA?ncias do A?lcoola�?.

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